O cliente te lê antes de você abrir a boca. Postura, olhar, o tom da primeira frase: ele sente se você acredita no que está oferecendo. É o que eu chamo de o estado antes da palavra: a venda começa no seu emocional, não no seu script.
Convicção se transfere. Insegurança também.
Você pode ter o melhor argumento do mundo, mas se por dentro você acha que está incomodando, isso vaza. O cliente não compra o que você diz. Compra o que você transmite.
E isso não é misticismo. É leitura de sinal. A gente é treinado desde criança a detectar desconforto no outro, porque isso era questão de sobrevivência. O cliente não sabe explicar o que sentiu, mas sente. E o que ele faz com essa sensação é adiar a decisão.
Onde a insegurança vaza
Ela raramente aparece como uma frase. Aparece nos detalhes:
- Na voz que sobe no fim da frase, transformando afirmação em pergunta. “O investimento é dois mil?” em vez de “o investimento é dois mil.”
- No desconto oferecido antes de alguém pedir. Ninguém corta o próprio preço por generosidade. Corta por medo.
- No “desculpa incomodar”. Quem pede desculpa por existir já entrou na conversa pedindo permissão.
- Em falar demais. Insegurança preenche silêncio. Quem está tranquilo pergunta e espera.
- Em evitar o preço até o último segundo, embrulhando ele em cinco frases de amortecimento.
- Na pressa. Falar rápido é o corpo tentando terminar logo aquilo que incomoda.
Se você reconheceu dois ou três, não se assuste. Todo mundo passa por isso. O ponto é que nenhum deles se resolve com argumento melhor. Todos se resolvem antes, no estado.
O que o cliente lê nos primeiros segundos
Antes de avaliar a sua proposta, ele responde três perguntas silenciosas: essa pessoa acredita no que está vendendo? Ela entende o meu problema? Ela precisa dessa venda mais do que eu preciso da solução?
Repare que nenhuma delas é sobre o produto. As três são sobre você. E as três são respondidas antes de você chegar no argumento principal.
Por que o seu estado fala mais alto
A gente confia em quem parece seguro. É instinto. Se você entra na conversa carente da venda, o cliente sente e recua, porque carência é sinal de risco: se ninguém está comprando, deve ter um motivo. Se você entra inteiro, acreditando que aquilo ajuda de verdade, ele relaxa.
Mesmo produto, mesmo preço, mesmo script, resultado oposto. Muda só o seu estado.
O ritual de 5 minutos antes
Estado não se controla com força de vontade no meio da conversa. Se prepara antes. Um ritual simples, sempre igual:
- Respire devagar. Quatro segundos inspirando, seis soltando, cinco vezes. Tira o corpo do modo alerta. É fisiologia, não crença.
- Lembre de um resultado que você entregou. Um caso concreto, com nome e número se possível. Você não está se convencendo com frase motivacional, está revisando prova.
- Defina a sua primeira frase. Só a primeira. O começo é onde a insegurança mais aparece.
- Decida o que você quer da conversa. Nem sempre é fechar. Às vezes é entender o problema. Objetivo claro tira ansiedade.
Prepare o estado, não só o argumento
Quase todo mundo se prepara pra conversa estudando o produto e ensaiando resposta pra objeção. Isso é metade do trabalho, e é a metade mais fácil.
A outra metade é chegar inteiro. Não adianta saber a resposta perfeita pro “tá caro” se, na hora que ele fala, o seu corpo entra em pânico e a sua boca oferece desconto sozinha.
Decida que não precisa daquela venda
Essa é a mais difícil e a mais poderosa. Quando some a carência, sobra postura, e postura vende.
Só que “não precisar” não se resolve com autoconvencimento. Se resolve com funil. Quem tem quinze conversas em aberto não precisa de nenhuma delas em específico. Quem tem uma, precisa muito, e transmite exatamente isso.
Se você anda entrando carente nas conversas, o ajuste não é emocional, é de volume. Aumente o número de oportunidades e a carência cai sozinha.
Durante: desacelere
Nervoso, a gente acelera: fala rápido, atropela, preenche pausa. Faça o contrário. Fale mais devagar do que o impulso pede.
E use o silêncio. Depois de falar o preço, cale a boca. É desconfortável pra você e é exatamente onde o cliente decide. Quem fala depois do preço, negocia contra si mesmo.
Você não transmite o que sabe. Transmite o que sente. Cuide do que sente antes de entrar.
Gerir o seu estado não é papo de autoajuda, é técnica de venda. O primeiro cliente que você precisa convencer é você mesmo.
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